sexta-feira, 22 de junho de 2012

Brincando com os amigos

O sombra estava assoprando aos quatro cantos pra quem quisesse ouvir que: Desesperado para que seu filho pela saco não se bandasse para o lado do bando de loucos, ( em alta, depois que ganhou o brasileirão 2011, vai ganhar a libertadores 2012 e rumo a Tókio) levou seu rebento para conhecer a estrutura do "Único Morumbi", quando chegou lá, realmente tudo bem cuidado, tudo de primeira... O pai olhou o filho deslumbrado com tudo aquilo pensou, agora ele sai do armário de vez e assume a tricoloridade... Menino cheio de marra este pela saco. O pai todo esperançoso que ele viraria bambi de vez, e de repente o garoto pergunta, pae, pae! não foi nesse estadio que o Corinthians ganhou muito dos seus maiores títulos? Não foi aqui que ganhou o paulistão de 77 em cima da Ponte Preta diante de mais de 130 mil pessoas, também os paulistões de 82,83, os brasileiros de 90,98,99 e por fim os paulistas de 2001 e 2003? Pae, dizem que no confronto do bando de loucos contra o nosso Majestoso, os Gambas fedorentos levam vantagem, é isso mesmo? E o pai sem graça e já desgostoso, não sabendo onde errou na educação do filho pela saco, tem que explanar a historia do Clássico para o garoto curioso. Em 128 clássicos no Cícero Pompeu de Toledo, 44 vitórias do Timão, 50 empates e 34 triunfos do rival. Uma supremacia também representada nos números gerais do confronto: 284 jogos; 105 vitórias do Alvinegro; 91 empates e 88 do Tricolor, tá satisfeito agora? Pela saco percebendo a irritação do pai exclama! filhos da puta né pae? O pai aproveitou o soar da sirene que soou para o almoço de segunda feira (dia utilizado para visitas ao estádio) dos funcionários da manutenção do Cícero Pompeu de Toledo e disse, pela saco, vamos embora, acabou o horário de visita...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Estes não viveram

Não viveram os que ficaram corroídos pela inveja do sucesso de alguém e se encheram de despeito. Não viveram os que sempre entupiram os seus corações com o mais monstruoso dos ódios irracionais. Não viveram os que nunca sentiram a presença silenciosa e emocionante da saudade. Não viveram os que procuraram corremper a pureza, a inocência, as virtudes, esmagando beija-flores, lírios, camélias e rosas. Não viveram os que não acariciaram uma criança, não a beijaram, não brincaram com ela, ou lhe negaram um sorriso, uma palavra de ternura. Não viveram os que, em nome da verdade, destruíram estupidamente as ilusões das almas ingênuas e sonhadoras. Não viveram os que aplaudiram com cinismo o erro, o vício, a injustiça, o roubo, o crime, a venalidade, a corrupção, a prostituição. Não viveram os que não amaram a cultura, a música, a poesia, a obra de arte, a beleza. Não viveram os incapazes de ter pena de um infeliz, de um desgraçado, e que transformaram Os seus corações em barras de gelo. Não viveram os egocêntricos, que se preocuparam apenas com seu bem-estar e fizeram de suas vidas uma auto-idolatria, sem ligar para mais ninguém. Não viveram os jovens que zombaram dos velhos, e os desrespeitaram com a impaciência, a injúria, os cretinos atos de grosseria. Não viveram os mesquinhos, que se mostraram pequeninos no modo de agir em relação aos nossos semelhantes e jamais tiveram um gesto de nobreza, de altruísmo, de desprendimento. Não viveram os que só queriam "relaxar e gozar" e que acharam que o principal é encher o estômago, dormir bem, defecar bem e ter voráz e insaciável apetite sexual. Não viveram os que só se preocuparam com os bens materiais, em detrimento dos bens espirituais, e que converteram seus corações em metálicas caixas registradoras , cujo som é assim: dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro. Não viveram os que, praticando uma ação vil, traíram a confiança de Quem neles acreditava e assim emporcalharam as suas almas, cobrindo-as com fedorentos manto de excremento. Não viveram os falsos, os hipócritas, que Cristo comparou a "sepulcros brancos, caiados por fora, mas cheios de ossos de mortos e de podridão por dentro". Não viveram os que foram racistas, preconceituosos, e que por orgulho tolo, por se sentitrem superiores, humilharam e maltrataram pessoas. Não viveram os que não sentiram a dor indescritível de perder, levada pela morte, uma pessoa querida, pois como disse o poeta Francisco Otaviano, em versos nos quais a verdade resplandece: Quem passou pela vida em branca nuvem e em plácido repouso adormeceu, quem não sentiu o frio da desgraça, quem passou pela vida e não sofreu, foi espectro de homem, não foi homem, só passou pela vida, não viveu. Meus amigos, viver é emocionar-se, no bom sentido, é sentir que temos alma, amor, sonhos, esperanças, coração, lágrimas, bondade, piedade, saudade. Quem não Não pussui tudo isto não está vivo, é como um campo desprovido de flores, árvores, pássaros, sombras aconchegantes, só habitado por vermes, ossadas, escorpiões, mortíferas cobras geradas na região do horror e do espanto. Texto do escritor e jornalista Fernando Jorge .

domingo, 27 de maio de 2012

A acompanhante

Noite fria, madrugada sombria e nebulosa, movimento fraco... Definitivamente aquela noite seria longa para Scarlath, -Acostumada a fazer o seu salário de forma rápida, a tempo de pegar o último ônibus destino bairro e ainda aproveitar um pouco da escuridão da madrugada para tirar um cochilo antes que seus dois filhos acordassem- já estava chegando a hora do negreiro passar e ainda não tinha atendido nenhum cliente importante, certamente teria que fazer cerão... Bêbados e andarilhos circulavam pra lá e pra cá falando sozinho ou gesticulando, até a polícia resolveu atrasar o lado de Scarlath a botando pra correr... Refeita do susto, trocou de ponto, quem sabe as coisas não melhoravam? Mas nada... Percebendo que teria que varar a noite pra ver se aparecia um cliente carente dos seus serviços, Scarlath liga em sua casa para avisar ao seu marido que sua patroa havia piorado de saúde e que não poderia voltar pra casa naquela noite, pois a acompanharia ao hospital... (para o seu marido ela trabalha de acompanhante de uma senhora enferma) -Betinho da pra você colocar as crianças na perua escolar amanhã cedo? Porque dona Carmelita piorou e, eu vou ter que passar à noite com ela no hospital. -Claro querida! pode deixar comigo, coitada da dona Carmelita né, sempre tão bondosa,tão dedicada, vai lá filha, e não esquece de mandar meus votos de melhora para ela, apesar de ela ser surda e muda, mas fala pra ela na linguagem dos sinais que eu espero que logo melhore. -Pode deixar Betinho, eu digo sim... Betinho no começo não gostava muito que sua esposa dormisse fora de casa, mas como dona Carmelita era uma patroa muito boa e sempre pagava a diária de Scarlath em dinheiro e nunca atrasava, ele não podia criar causo, dona Carmelita sempre lhe mandava recordações e entendia perfeitamente o fato de Betinho não poder trabalhar, por causa do nervo ciático que doía muito...Como criar causo com uma patroa destas? não tem boca pra nada, vira e mexe presenteia Scarlath, sempre dá uma gorjeta a mais quando ela precisa passar do horário de trabalho... Assunto resolvido com o Betinho, garantia de que as crianças não faltariam à escola e que sairiam de casa bem agasalhados e alimentados, (Betinho não gostava muito de trabalhar e, adorava uma birita, e quando bebia se tornava meio violento, mas era um ótimo pai) Scarlath agora está mais tranquila para dedicar-se ao trabalho retoca a maquiagem e recompõe a postura, a lida continua...

domingo, 20 de maio de 2012

Inversão de valores

Nascido numa época em que muitos pais se espelhavam em personalidades estrangeiras para dar nomes aos seus filhos, Richard vivia uma realidade muito distante da de uma celebridade. Casas pequenas, sem acabamento adequado, ruas estreitas, esgoto a céu aberto... Estes eram apenas pequenos detalhes no cotidiano daquele garoto acostumado a vivenciar coisas horríveis acontecerem quase que diariamente nas proximidades de sua casa. Quantas vezes presenciou incursões de policiais fortemente armados morro acima, vasculhando e invadindo casas, algumas vezes usando de groceria e violência -não raras vezes invadiam casas de gente de bem, dando a entender que só pelo fato de morarem na favela estas pessoas se tornavam automaticamente suspeitas-. Também não raras vezes presenciou os policiais no estrito dever de suas funções, serem recebidos a tiros e na ação de auto-defesa revidarem à altura, e sempre quando isso acontecia, corpos esticados pelo chão era garantido. Richard se angustiava, e não entendia porque tudo isso acontecia, justamente ali aonde ele morava? Onde também viviam seus melhores amigos, porque eram impedidos de brincar livremente nas ruas, ou na área de lazer? Sendo que ali eram os únicos lugares úteis e com espaço para se brincar, já que dentro de casa o espaço era reduzido? Ele se revoltava porque todas as vezes que isso acontecia, seus pais o trancafiava como se ele tivesse feito alguma coisa de errado, e o privavam de exercer o seu pleno direito de brincar com seus amigos. Certa feita, depois de mais um dia de alvoroço, e logo após ouvir de seus pais, pela centésima vez a ordem de não sair de casa, Richard os questiona: porque toda vez estes policiais vem aqui para perseguir a nossa comunidade? Porque perseguem tanto o Cabelo e seus amigos? Logo o Cabelo que tanto nos ajuda, e tanto faz por nossa comunidade? Só porque ele é rico e foi ele quem fez a nossa praça de lazer, e sempre distribui alimentos para o nosso povo? Isso é inveja né pai? Nenão mãe? Diante do silêncio dos seus pais ele conclui. Eu sabia, quando eu crescer não quero ser um policial...

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Clássico na várzea


Era para ser apenas um jogo amistoso, mas foi só a bola rolar para o bicho pegar.

De um lado o Renascencia, que está de volta os campos da várzea há um mês depois de ficar parado há um ano, é um time que está se reformulando.

Do outro, o Scala Veteranos que vem jogando junto há algum tempo. Escalado com Fernando, Carlinhos, Eduardo, Ditão, Valmir, Divanei, Tata, Negão, Fábio, Cristiano e Balú, o Scala esperava seu jogo, mas o adversário da liga não compareceu.

Para que ambos não ficassem sem jogar, a organização do evento resolveu remanejar e promover esse amistoso entre as duas equipes.

Com jogadores a menos o time do Scala cedeu quatro jogadores do seu elenco para o Renascência que pegou mais dois jogadores de um outro time que jogaria mais tarde.

Times escalados, todos conhecidos de longa data...

O árbitro, outro conhecido, deu inicio à partida. E, logo nos primeiros minutos de jogo, a constatação que não seria apenas um jogo amistoso e tranquilo como todos esperavam.

O atacante do Scala, Balú, pega a bola na intermediária e passa por três defensores do Renascência. Quando se preparava para enfiar a bola para as redes, o outro atacante, Cristiano, apareceu completamente impedido e tomou a frente na afobação de fazer um gol contra seu ex time. O árbitro não teve dúvidas e anulou a jogada.

O Renascência, após o susto inicial, começou a por a bola no chão e tocar de pé em pé envolvendo completamente o meio de campo do Scala. Quando o Escala chegava, era sempre contido pela zaga bem postada do Renascência.

A afobação dos atacantes do Scala. Balú estava segurando demais a bola e o Cristiano preocupado em sair da marcação forte que lhe fora imposta, além, é claro, de rivalizar com seus ex-companheiros de equipe, que o desconcentrado do jogo.

Então o Renascência que já tinha o jogo na mão, começou a pressionar os meias e os volantes do Scala. Mais jovens e velozes se antecipavam e tomavam a bola com facilidade. E tome contra-ataque em velocidade. Não demorou muito para sairem os gols. Logo após uma boa saída de bola, o Baby fez um lançamento nas costas do lateral esquerdo que falhou na esperando a bola sair. O atacante tomar-lhe a frente e cruzou rasteiro na entrada da pequena área para uma pancada seca do atacante que abriu o placar sem chances para o goleiro.

Enquanto a molecada do Renascência ditava o ritmo do jogo, o Moisés, o zagueiro deles provocava não só o Cristiano, mas a todos os jogadores do Scala. Como se fosse um argentino catimbeiro, xingava, caia, fazia faltas e pressionava o árbitro que fingia não escutar. Resultado: um, dois, três a um pro Renascência no primeiro tempo e os jogadores do Scala, quase todos, muito nervosos com o Moisés.

Começou o segundo tempo e o Scala precisava reagir para não tomar uma histórica goleada. O Renascência voltou pro jogo com outra postura, achando que o jogo estava ganho. Parecia esquecer a história e o retrospecto de superação do Scala Veteranos que já buscou resultados adversos em que a derrota era iminente, mesmo quando a diferença era de dois e até quatro gols.

O Renascência começou a tocar a bola de lado, a dar passes de três dedos, tocar a bola pra um lado olhando pro outro. Essa displicência foi a deixa para o Scala que melhorou seu posicionamento e já não dava mais tantos espaços, reagir. Seus laterais e volantes já não estavam dando mole e marcavam forte. O lance mais ríspido do jogo ficou por conta do lateral esquerdo Walmir e o meia do Renacência. Ambos com entradas fortes. Num desses lances ouve um bate boca entre ele e o monstro sagrado, o volante Tata, que ao tentar apaziguar foi ofendido e tomou a discussão para si. Por muito pouco não saíram na mão. Foram contidos pelos mais tranquilos e pelo árbitro.

O fato foi que a molecada do Renascência não estava preparada para uma marcação forte e foram deixando espaço para que os meias e atacantes do Scala tomassem as rédeas do jogo no segundo tempo, e sumiram do jogo.

Numa jogada de velocidade, o Valmir tomou a bola do zagueiro Moises e fez o segundo gol dos veteranos, aumentando o ânimo de todos. Quando tudo parecia mais tranquilo o árbitro parou uma jogada em que o Cristiano ganhava da zaga. O atacante protestou com xingamentos e acabou expulso.

Mesmo com um homem a menos o Scala jogava um belo segundo tempo. Empatou e virou o jogo com Balú (de novo) e Tuca.

O jogo pegou fogo. O meia que havia batido boca com o volante Táta, o pegou em uma jogada e cravou a chuteira em sua canela, mas o árbitro não deu nada. Por sorte ele fez falta violenta no Valmir e foi expulso.

Logo após a expulsão, o Renascência chegou ao empate com um gol de penalti. Mas o dia era do Scala que em mais uma bela jogada do Valmir, fechou o placar: Scala 5x4 Renascência. Foi mais uma virada histórica.

E foi só ter o apito final que tudo voltou a ser amistoso.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sonhos

Todos os sonhos daquele menino se resumiam em poucas coisas. Ter uma bicicleta, uma bola de futebol, um kichute para calçar... Muito pouco, mas não deixava de ser sonho... Sonhos de criança, são apenas sonhos, e não obsessão... Enquanto nada acontecia... Tudo se fazia acontecer na vida daquele garoto, matuto, sereno... Não tem a bola de capotão, mas tem a feita de meias, e panos enrolados no saco plástico e bem amarrados com barbante. Não seria por isso que deixaria de fazer seus gols no campinho. Onde obrigava seus irmãos, hora um, hora outro, a ficar no gol aguentando aquela bola irregular, queimar seus braços com as bicudas que dava, de dedão, com seus pés descalços...Não tinha a bicicleta. E dai? Ele sonhava com ela, mas os carrinhos de rolemã por hora substituía o desejo de sentir a brisa dos ventos batendo em seu rosto liso como bundinha de bebê. A bola de meias e panos e o carrinho de rolemãs não faziam ele esquecer dos seus sonhos, mas o fazia feliz. Com aquela bola irregular e dura, contabilizou: superou Pelé o rei do futebol, fez muito mais de mil gols... No carrinho de rolemãs também perdeu as contas de quantos arranhões e tombos teve... O garoto crescia tão rápido quanto uma massa de pão ao forno. E conforme crescia, também cresciam e modificavam seus sonhos. A bicicleta, a bola de capotão, já havia conquistado há muito tempo, e o kichute? Ele nem acreditava que um dia sonhou com aquilo, e que, quando realizou, muitos já jogavam bola com chuteiras iguaizinhas às dos jogadores da televisão...O garoto agora crescido. Seu rosto já não era mais tão liso como bundinha de bebê (agora mais parecia uma lixa). Seus sonhos não são tão simples como outrora, mas ele continua sonhando... Pena que agora ele não consegue, como naquela época, se adaptar facilmente, às alternativas que a vida o dá. E por vezes se angustia, não sabendo mais discernir, o que é sonho, e o que virou obsessão. Por vezes se pega sonhando novamente. Sonhando em voltar a ser e pensar como aquela criança que foi, sem se desesperar em tornar sonhos em realidade... E viver a sua realidade como se fosse um sonho realizado, vivendo intensamente feliz simplesmente por existir. E por ser um sonho realizado pelos seus pais desde a concepção...

sábado, 21 de abril de 2012

PESSOAS DIFERENTES, MORINGAS IGUAIS

Pessoas diferentes, épocas diferentes, cidades distantes, atitudes iguais. Naquela época, eu era tão pequeno, tão menino que não sei nem quem era o presidente do Brasil. Muito menos o nome ou o valor da moeda corrente da época. E pra não dizer que politicamente não me lembro de nada, eu sei que o prefeito da minha cidade se chamava Ademarzinho. Que a minha cidade tinha uma bela represa com uma cacheira fantástica e todos os finais de semana ficava cheia de turistas. lembro-me também que todos os anos no mês de junho, tinha uma festa junina sem igual naquela cidadezinha. Lugar bom de morar, cidadezinha acolhedora, poucos moradores, todos conhecidos. Um único lugar para se fazer compras de laticínios e cereais, no armazém do Mentonne. Um só lugar para comprar frutas, legumes e verduras, na quitanda do Álvaro e do Italiano. E se alguém ficasse doente, o Nicolau da farmácia tinha a solução, ele nem parecia farmacêutico, mais parecia médico, ou curandeiro. Pão e leite só na padaria do Maurício, mas o padeiro se encarregava de entregar a encomenda na casa das pessoas. Sobre esta pequena cidade eu já sabia quase tudo, mas alheio a isto tudo, eu só queria mesmo era brincar nas ruas sujas de terra sem calçamento dali. Além de brincar, eu adorava ouvir as histórias dos mais velhos. Adorava conversar com os adultos que sempre tinham uma bela história pra contar. Como eram sábios aquele pessoal. Zé Baiano, dona Merinda, seu Geraldo, Edgar, dona Nenzinha... Quantas prosas, quantas histórias fantásticas... De toda esta gente maravilhosa tenho saudades, e acredito que eles gostavam muito de mim, porque sempre que eu os encontrava para um papo, eles ficavam bastante tempo conversando comigo. Eu adorava também ir à casa do meu avô Antonio, que morava vizinho a casa dos meus pais. Meu avô Antonio e sua esposa Cida, viviam sós, em uma casa da pau a pique revestida com barro. Tudo muito rústico, mas muito bem cuidado pela Cida, ela era caprichosa, conseguia organizar aquela casa de barro que tinha o piso de chão batido, com um zelo de quem cuidava de uma mansão. Nada fora do lugar, chão de terra estupidamente limpo, sem nenhuma sujeira, nem poeira tinha. Parecia que era chão de cimento queimado. Aquela mulher apesar de viver em um lar tipicamente rural, tinha um orgulho estupendo de manter aquela casa bem organizada. As cortinas feitas à mão com material reciclável, plásticos e papéis de cigarro, cestinhas feitas com o mesmo material. A toalha de mesa feita de retalhos de pano, e sobre a mesa de tábua crua mantinha uma moringa, que além de manter a água de poço fresquinha e com o mesmo sabor, como se ainda tivesse no fundo daquele poço de vinte e três metros de profundidade, era uma bela peça de decoração. Tudo com a cara e o jeito daquela mulher, que embora não fosse minha avó, era como se fosse, -pois minha avó era falecida desde quando deu a luz ao meu tio, e eu nunca a conheci- e me agradava me tratando a pão de ló, todas as vezes que eu ia visitá-los. Quase todos os dias eu dava uma passada lá na casa do meu avô Antonio, eu gostava muito de ouvir as lindas histórias que o velho contava. Gostava muito mais das suas piadas, o Italiano carcamano era bravo mais adorava contar umas piadas. Gostava de ir ali, não só para ouvir o bom papo, mas também para fazer uma boquinha, claro ninguém é de ferro. A Cida mantinha sempre na chapa do fogão à lenha um bule com café, que nunca se esfriava, e escondido no buffet um bolo de fubá, que só era dado a quem eles realmente gostassem. Não raramente o papo ficava interessante e eu ficava horas por ali, e de vez em quando, aproveitava para jantar com eles. - seis da tarde a janta era posta à mesa- Não dava pra resistir aquele cheiro de comida mineira, bem temperada, aquele feijão, aquele angu, aquela couve bem picadinha, hum que delícia. O que mais me encantava de estar ali, era o respeito e o amor que me tratavam, aquela mulher, apesar de não ser minha avó, me tratava com carinho e respeito, talvez porque eu fazia aniversário no mesmo dia do mês que ela. Tempo bom... Há alguns dias conheci uma senhora, a dona Ivani, ou dona Diamantina como ela gosta, mãe de uma amiga minha, que me fez lembrar desta época áurea da minha vida. Dona Diamantina, diferente na cor, diferente no nome, na cidade que vive... Mas igual na generosidade, na hospitalidade, e também é boa de prosa. Estupidamente igual a Cida no zelo com as suas coisas, sua casa não é de barro, muito menos de chão terra batido, mas as suas coisas são todas arrumadinhas, ela também tem muita intimidade com os artesanatos. São vasos de flores, feitos com garrafas pet, porta retratos feito com material reciclável... Na cozinha nem se fala, uma especialista. Ela tempera um feijão sem igual, que lembrava em muito a época que eu filava a boia na casa da Cida, que arroz soltinho! Não faltou nem o angu. Foram poucos dias que passei na casa da dona Diamantina, mas o pouco tempo que passei por ali, fui tratado como um filho, não eram raras as vezes que a gente parava o serviço que eu estava fazendo pra ela, para prosear, e olha que dona Diamantina, a exemplo de muitas pessoas inteligentes que conheci, tem histórias pra contar. Uma senhora muito plugada nos assuntos políticos, que também adora contar tudo que ouvia nos noticiários dos programas jornalísticos que assiste. E pra me sentir mais em casa ainda, sempre quando estava com sede, dona Diamantina me trazia da sua moringa uma água geladinha e providencial, que de tão bem acondicionada pela moringa,
parecia ter saído da fonte do poço de vinte e três metros do meu avô.